Beraldo, Dom Pedro II e os fiscais de José Sarney



Como escritor e jornalista, eu tive que aguentar diversos tipos de censura desde os 15 anos de idade. (Os detalhes sobre essa estréia adolescente você encontra neste link). Fui censurado até quando não me lembrava que tinha sido. Aconteceu num capítulo da novela Helena, que escrevi (com Mário Prata e Reinaldo Moraes) para a TV Manchete. Na nossa adaptação do romance de Machado de Assis, inventamos uma passagem do Imperador Pedro II (vivido por Marcelo Pichi) pela fictícia cidade de Guayçara.


Marcelo Pichi

Descobrimos que o hino nacional brasileiro nasceu com a música de Francisco Manuel da Silva. E que a letra (de Joaquim Osório Duque Estrada) foi escolhida depois, a partir de um concurso. Resolvemos que Beraldo (Luiz Maçãs), o jovem poeta de Guayçara, aproveitaria a passagem do imperador para oferecer a sua versão do hino. 
Luiz Maçãs

Eu me diverti muito escrevendo na íntegra esse "hino nacional alternativo". Por exemplo o trecho: "Se o penhor dessa igualdade / Conseguimos conquistar com braço forte / Em teu seio, ó Liberdade / Desafia o nosso peito a própria morte". Na versão de Beraldo era: "Meu senhor, minha senhora / Cada qual está entregue à própria sorte / Quem tem peito está na hora / De dar leite a quem chegou pobre do Norte".


Quando esse capítulo foi para o ar, veio a frustração. A banda tocava o hino (para um Dom Pedro tomando o café da manhã, ainda na cama). Beraldo movia a boca, cantando a sua letra sem emitir um som. Mas o telespectador só ouvia a música. Sempre achei que fosse um erro técnico.  





Revirando meus recortes dessa época decobri um artigo (da Folha de São Paulo, 27 de agosto de 1987) contando que este foi mais um caso de censura. E em pleno governo civil de José Sarney. Segundo o artigo, a Censura Federal não gostava do jeito (informal mas extremamente simpático) como a gente retratava o imperador brasileiro. Deixaram que a música do hino fosse tocada. Mas a voz de Luiz Maçãs seria pateticamente cortada da cena.


Para ler a matéria (que trás depoimento de Mário Prata com outros detalhes da censura), clique na imagem abaixo:


Comentários

diogo disse…
Do que o luiz maças morreu
Dagomir Marquezi disse…
Foi suicidio, Diogo.

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