terça-feira, 17 de maio de 2016

Conversas com Billy Wilder


O polonês Billy Wilder (1906-2002) foi um dos mais importantes diretores de cinema de Hollywood durante os anos 1950 e 1960. São dele obras primas como Se Meu Apartamento Falasse, O Crepúsculo dos Deuses, Sabrina, O Pecado Mora ao Lado, Quanto Mais Quente Melhor e muitos outros.

Por causa do longo blecaute de ontem fui obrigado a procurar algum livro de papel para ler. E dei de cara com este acima, emprestado pelo meu amigo Ricardo Dias. O livro é uma longa entrevista realizada com Wilder pelo igualmente cineasta Cameron Crowe (diretor de Jerry Maguire, Quase Famosos e Vanilla Sky, entre outros). 

Para quem conhece a obra de Billy Wilder o livro é uma delícia. Ele conta segredos de bastidores de astros como Marilyn Monroe, Cary Grant, Jack Lemmon, Walther Matthau, Marlene Dietrich, Tony Curtis, etc. E dá excelentes aulas de processo de criação. Mostra como muitos dos seus melhores filmes foram criados em processos fragmentados de criação de roteiro, em mudanças repentinas de elenco, em decisões equivocadas dos grandes estúdios. Billy Wilder só confirma que arte sob controle não é arte.

Billy Wilder

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Confissões de um pedestre


Meu nível de felicidade aumentou muito quando eu vendi meu último carro. E isso aconteceu há pelo menos 3 anos. Minha saúde desde lá deu um salto de qualidade. 

Eu sei, existem desconfortos na vida de um pedestre. E muito perigo. Mas eu prefiro assim. Então minha vida fora de casa consiste em andar (muito), geralmente com fones de ouvido tocando música ou podcasts. E muitas conexões com o sistema de transporte coletivo.

Tenho sorte de morar perto de uma estação de metrô de São Paulo. Em 20 minutos posso estar do outro lado da cidade enquanto os carros se atravancam lá em cima. Tendo minha própria empresa, procuro administrar meus horários de forma a evitar os horários de pico, quando os ônibus e metrôs ficam lotados.

A vida poderia ser ainda melhor para pedestres e não-pedestres se os brasileiros não tivessem destruido sua rede de trens de passageiros e bondes. Mas temos tempo para uma reconstrução. Vai depender de vontade e foco. A mobilidade da população deveria ser uma das prioridades políticas e administrativas. E isso deveria estar acima de ideologias e partidos.

Sonhar é de graça. E nos meus sonhos eu não ando de carro.


domingo, 8 de maio de 2016

35 horas de reggae


Uma das minhas listas favoritas no Spotify é minha seleção DM Reggae Jam. São 35 horas continuas de reggae, 507 músicas para quem tiver uma assinatura:

domingo, 1 de maio de 2016

3 vídeos raros de Prince que você deveria conhecer


Atendendo a pedidos, mais vídeos que mostram a arte de Prince (1958-2016). Infelizmente a maior parte da imprensa não saiu dos limites de 5 músicas e do fato dele ter escrito uma letra onde dizia que não era homem nem mulher. E Prince morreu com 40 álbuns lançados e - descobriu-se esta semana - 2 mil músicas inéditas. Aqui, alguns exemplos de sua genialidade felizmente preservados no You Tube.


Ainda no Japão, durante um ensaio em 1990, Prince mostra o que sabe fazer com apenas um piano improvisando o tema de Summertime:


Aqui, um encontro improvável: Prince e Miles Davis.


E para terminar esta lista, um remédio anti depressivo no Aladdin improvisando sobre 1+1+1=3. Ele (que tinha altos problemas com pirataria) pede no minuto 2:55 que as pessoas transmitam o show pelo celular, ele não está nem aí:

quinta-feira, 21 de abril de 2016

RIP Prince Rogers Nelson (1958-2016)


Conheci a música de Prince logo no início de sua carreira, ainda nos anos 1980, graças ao meu amigo Rogério Naccache. Reconhecemos no baixinho a marca do gênio. Um cara que grava seu primeiro disco tocando todos os instrumentos, compondo todas as músicas e fazendo todos os vocais aos 17 anos não é qualquer um.

Na verdade esse primeiro disco (For You) foi um dos seus piores. Depois tudo melhorou. Prince mostrou ser o maior gênio do funk depois de James Brown. Fazia tudo muito bem: rock, pop, música eletrônica, baladas tristes, jazz. Qualquer coisa. Para a maioria das pessoas vai ser lembrado como o cara que fez o filme Purple Rain. Era muito, muito mais do que isso. Inclusive um dos maiores guitarristas de todos os tempos. Este solo em While my Guitar Gently Weeps (de George Harrison) é um bom exemplo disso:


Prince era também um excelente produtor, cuidando de artistas talentosos como The Time, Sheila E, e tantos outros. Recusou-se a mudar para a meca da industria musical, Los Angeles e construiu um complexo artístico em sua cidade natal, Minneapolis - onde faleceu. Ele não subia no palco simplesmente. Seguindo a linha de seu ídolo James Brown, ele entregava sua alma à platéia. Cantava, tocava, dançava, transformava o momento numa celebração da vida. Deixava sua timidez de lado e incendiava o mundo ao seu redor com o fogo do verdadeiro funk:


Sou grato a Prince por muitas coisas. Pelo exemplo de artista que ele foi, pelo senso de liberdade, pelo exemplo de ética profissional, por cada segundo de música que me fez sentir mais vivo em minhas caminhadas dançando nas ruas de São Paulo com os fones nos ouvidos. E sou grato por Prince ter me dado a ideia de que é possível aproveitar radicalmente os prazeres da vida e ser religioso ao mesmo tempo. Prince foi um cara que juntou dance music com o Pai Nosso em Controversy (a partir do minuto 3:25). Acho que é assim que ele gostaria que rezassem por sua alma iluminada:

terça-feira, 12 de abril de 2016

O que é um livro?


A resposta parece simples. Livro é aquele objeto de papel cheio de letrinhas que compramos na loja e colocamos na estante.

Obviamente digo isso com ironia, pois há muito tempo aderi ao livro digital. Livro para mim hoje se define melhor como "conjunto de letras e ilustrações colocados sobre fundo neutro" - que pode ser papel ou a tela do computador, do celular ou tablet.

Mas agora essa questão ficou ainda mais complicada para mim. Comecei a usar a plataforma Wattpad, onde você pode publicar o que quiser como se fosse um blog, mas cria uma capa e divide seu texto em capítulos. Como exercício, estou narrando uma viagem que fiz pela California em 1992:


O que é isso? Letras em fundo branco com ilustração. É Wattpad, mas quem disse que não é um livro? Me parece que o conceito de livro está se despindo de suas vaidades. Qualquer um pode escrever um livro? Sim. Qual o problema? Então basta abrir uma conta no Wattpad e começar a escrever o primeiro capítulo? Sim. Se vai virar um bom livro ou algo intragável, essa é uma outra história. Mas o caminho está aberto.


quarta-feira, 6 de abril de 2016

Caderno 2, 30 anos - eu estava lá

 

Há exatos 30 anos eu estava na redação do Estado de São Paulo participando da inauguração de um marco do jornalismo brasileiro: o Caderno 2. E, só agora descobri, mereci nesse dia 6 de abril de 1986 uma chamada de capa.

O Caderno 2, dirigido por Luis Fernando Emediato, foi um momento raro de liberdade na imprensa nacional. Lá a gente podia fazer o que desse na cabeça. Eu me propus a escrever sobre áreas da cultura que os jornais costumam desprezar - rádio, quadrinhos, TV. (Se fosse hoje estaria falando de streaming, redes sociais, e outras coisas). Foi no Caderno 2 que eu realizei um sonho: ajudei a interromper a caça à baleia no Brasil através da intensa participação popular na minha coluna Recado Ecológico.

30 anos depois é difícil para mim ver no que o Caderno 2 se transformou: no diário da caretice, da previsibilidade, da cultura de gabinete, do ranço esquerdista. Uma das poucas coisas que eu leio lá com prazer hoje em dia é o horóscopo de Oscar Quiroga.


quinta-feira, 31 de março de 2016

Oldflix, a melhor notícia do dia


Para quem gosta de cinema, a era do streaming tinha uma desvantagem: estava difícil  assistir qualquer filme anterior a 2000. Com a enxurrada do Netflix, passei a assistir uma quantidade muito maior de filmes atuais, o que é bom, mas incompleto. Como cinéfilo e profissional da área, não gosto de me limitar no tempo. Procuro sempre ampliar a perspectiva histórica. E pensava, nos meus sonhos: bem que poderia existir uma "netflix dos clássicos".

Acordei do sonho hoje com o Oldflix. Filmes desde a década de 1940. Séries fabulosas dos anos 1960. E tem uma semana de degustação. Claro que não vou ficar só na degustação...

segunda-feira, 28 de março de 2016

Filme # 2491: Tarzan's New York Adventure (1942)



A era streaming trouxe muitas vantagens aos cinéfilos compulsivos. E um problema: a falta de visão histórica. Quase tudo que eles oferecem é muito recente. A Netflix precisa melhorar o serviço de ofertas de "clássicos". A Net já deu esse passo, e nos oferece em sua programação on demand umas 150 opções de filmes pré-1980. Comecei com Tarzan's New York Adventure, conhecido no Brasil como Tarzan Contra o Mundo. É um filme curto (71 minutos), escrito por Myles ConnollyWilliam R Lipman e dirigido por Richard Thorpe.

Confesso que me diverti da primeira à última cena. Digo "confesso" porque o filme não trata muito bem os animais. A macaca Chita é transformada numa palhaça permanente e ridicularizada do começo ao fim. Leões são aprisionados em minúsculas gaiolas. Elefantes ainda crianças são obrigados a fazer truques de circo no set de filmagem. Mas isso é 1942! Não podemos tentar entender a visão de mundo da época com os olhos de hoje. Pelo menos o vilão é o dono do circo, um traficante de animais sem escrúpulo nenhum.



O filme tem ótimas cenas de ação no começo, quando o avião dos caçadores aterriza na selva e - apesar da proibição de Tarzan - leva os leões e sequestra Boy, o filho do herói. A segunda metade do filme é uma comédia com ação. Tarzan, o homem das selvas sempre de sunga, é obrigado a vestir um terno para procurar seu filho em New York junto com sua esposa Jane. O herói é encarnado pelo grande Johnny Weissmuller (1904-1984), o campeão olímpico de natação que se tornou o símbolo do personagem para sempre. Neste filme ele mostra que sabia fazer comédia muito bem. 

Este é o trailer de Tarzan's New York Adventure:

segunda-feira, 21 de março de 2016

My personal Beatles # 2: The Inner Light


Eu (e o mundo ocidental como um todo) devemos a George Harrison a descoberta da música indiana. Aconteceu na primeira e chocante audição de "Love You To" (do álbum Revolver). "The Inner Light" foi lançado no momento em que eu fazia 15 anos de idade, como lado B do compacto Lady Madonna. Foi gravado por Harrison com músicos indianos e sem a participação dos outros 3 Beatles (a não ser nos backing vocals ao final).

O que me fascinou na época  e ainda me fascina é como uma mistura de pop inglês com música clássica indiana ficou tão parecido com um... baião! Naquele tempo não existia ainda o nome (e nem o conceito) de world music. Mas "The Inner Light" foi uma precursora desse caldeirão cultural de um mundo cada vez mais interligado.

A letra é baseada parcialmente em ensinamentos do chinês Lao-Tsé e funciona quase como uma propaganda de meditação transcendental: "Sem sair pela minha porta / Posso conhecer todas as coisas da Terra / Sem olhar pela minha janela / Eu poderia conhecer os caminhos para o paraíso".  A música começa com os sons típicos do sul da India dialogando com o que parece ser uma viola saída de uma gravação de "Asa Branca", de Luís Gonzaga.

Aos 25 segundos entra a voz suave de George Harrison: "Without going out of my doorI can know all things on Earth / Without looking out of my window / I could know the ways of Heaven / The farther one travels / The less one knows / The less one really knows". Em 1 minuto e 5 segundos ressurge a fantasmagórica viola nordestina. Teria George alguma vez ouvido a música Asa Branca e ficado com o som da viola na cabeça? Agora é tarde para perguntar...


E aqui temos o registro de uma versão instrumental produzida para o filme Wonderwall. Nessa gravação podemos ouvir George Harrison conversando com os músicos antes da gravação:

quinta-feira, 17 de março de 2016

Nenhum ditador manda em mim


Com 63 anos de idade (e uns 50 de experiência política) posso dizer que cheguei a algumas conclusões, que passei para o meu filho e sei que chegarão aos meus netos: nunca, jamais, de forma alguma se dedique a seguir cegamente qualquer partido ou qualquer líder político. Fuja de ideologias pré-fabricadas e visões simplistas da vida. Estude profundamente sua realidade. Pense por si mesmo.


quarta-feira, 2 de março de 2016

Os Mamonas, 20 tristes anos depois


Há 20 anos eu fui acordado pelo meu filho com a trágica notícia da morte dos Mamonas Assassinas. Eu já era fã dos caras. Achava o único CD lançado por eles uma obra prima da história da música brasileira - e continuo achando, cada vez mais.

Dez anos depois, em 2006, eu estava completamente envolvido com essas 5 almas, escrevendo o roteiro de um longa metragem para uma produtora de São Paulo. Entrevistei todos os envolvidos com os Mamonas - familiares, amigos, empresários, produtores, etc. Foi um longo processo, que gerou um roteiro grande o suficiente para uma minissérie. Mas a produtora não teve a capacidade de concretizar o projeto. Pelo menos conseguiu lançar um documentário, com boa parte das entrevistas feitas por mim.

Hoje, vinte anos depois daquele trágico domingo, me sinto frustrado (pelo filme que não saiu) mas recompensado pela reflexão de Luiz Felipe Pondé na Folha de São Paulo. Ele mostra o quanto o país piorou nesses vinte anos. Da alegria dos tempos dos Mamonas viramos um país odioso, onde a liberdade de pensamento e criação é massacrada por patrulhas ideológicas. Como ele mesmo disse, "se os Mamonas Assassinas aparecessem hoje provavelmente, não teriam carreira. Algum membro do Ministério Público careta e autoritário teria proibido muitas de suas letras em nome do bem e do 'respeito' a algum grupo de ressentidos".


Minha música favorita dos Mamonas é "Cabeça de Bagre II". Lá eles profetizam com ironia nosso futuro idiotizado, controlado por "intelectuais progressistas":

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Mais fotos de Pastelvis

Fotos: Daniela Towiansky 

No domingo, dia 2 de dezembro de 2006 eu me vesti de Elvis Presley (fase Las Vegas) e fui representar a revista Playboy numa convenção de fãs. A revista me proporcionou a roupa, a peruca e os óculos e lá fui eu com a fotógrafa Daniela Towiansky em mais uma missão como repórter gonzo. Não fiz muito mais do que circular com essa roupa espalhafatosa com a boca torta. Tornei-me Pastelvis, o Elvis fake da rua Augusta. Depois escrevi uma matéria toda baseada em títulos de músicas de Elvis Presley contando o que tinha acontecido. Estas são algumas das fotos tiradas naquele domingo maluco.




sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Umberto Eco (1932-2016)


Eu quis ser Umberto Eco no final da década de 1960. Enquanto os intelectuais costumavam se dedicar a temas chatíssimos e alienados da realidade, Umberto Eco escrevia ensaios sobre James Bond e Superman. Decidi que seria um sociólogo da mídia, dedicado ao estudo do que me apaixonava - quadrinhos, séries de TV, a cultura da gente comum e não dos encastelados nas torres das universidades. Meu primeiro livro (Auika!, de 1980) era uma clara demonstração da minha vontade de ser o Umberto Eco brasileiro. Rapidamente percebi que não tinha condições nem de pensar nessa possibilidade. O italiano era o gênio que escreveu O Nome da Rosa. Além de ensaísta era um brilhante autor de romances históricos. complexos e enigmáticos.

No início dos anos 1982 sobe que Umberto Eco daria uma palestra na USP. Convoquei meu amigo/intérprete Claudio Poles e fomos ao campus procurar pelo homem. Quando o encontrei, tive o comportamento típico de um fã: balbuciei palavras sem muito sentido, fiz perguntas tolas. O "diálogo" durou menos de 1 minuto e o mestre partiu sem muita paciência. Naquele tempo nem havia selfie.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

As obras de Augustus estão em exposição permanente no salão principal da minha memória afetiva


Eu nunca fui um aluno brilhante. Sempre preferi o caminho da auto-educação. E nos meus primeiros anos de escola, os conhecimentos básicos do mundo quem me passou foi essa inesquecível coleção de livros infantis de Monteiro Lobato editada pela Brasiliense. Levei a coleção comigo até onde pude, mas tive que me desfazer dela. Mas as imagens das capas estão gravadas a fogo no meu subconsciente. As ilustrações são de Augustus (pseudônimo de Augusto Mendes da Silva) - que não mereceu nem um minúsculo verbete na Wikipedia. Apagado.

Esses livros provavelmente já desapareceram em sebos e mesmo em latas de lixo. Felizmente algumas almas piedosas tiveram o cuidado de registrar essas obras de Augustus e elas estão (ainda que precariamente) disponíveis na internet. Minha memória agradece. Essas imagens estão em exposição permanente na zona de conforto da minha mente.